Vivemos esperando. Esperamos e morremos.
Silêncio
É quando tudo se aquieta e as visitas já acabaram, o quarto cai num escuro misto com um fio da claridade vinda de fora, apenas um vislumbre da luz e do burburinho das enfermeiras com seus tênis que um dia foram brancos, mas agora estão gastos demais friccionam o chão limpo fazendo ameaça ao silêncio que cobre aos poucos o meu leito de convalescência.
É a noite que os pensamentos de outra vida me consolam ao mesmo tempo que me assolam. Uma tempo tão distante agora da minha realidade, que posso dizer sem dúvidas que fora em outra vida, outro corpo, porém a mesma alma. É na penumbra, quando o calor do dia me abandona e a lua indiferente reina, que posso viver de passado e lamentar o presente.
Não há dor mais doída do que a dor da falta do que não se viveu, dor de arrependimento pelo que não se teve a audácia de tentar, dor de planos abortados sem ao menos receberem o nome de planos, morreram quando ainda eram tênues ideias.
Lembro do curso de fotografia que pensei em fazer, mas não tinha máquina fotográfica, desisti. Da viagem para à praia que não fiz, pois tinha medo do mar. Não aprendi a andar de moto, não fiz trabalho voluntário no asilo, não corri a meia maratona que queria, não vi o nascer e nem o pôr do sol, não aprendi a tocar violão, não disse que a amava, não pulei de paraquedas.
E agora estou morrendo, não há mais tempo. Uma lágrima de rancor escorre rasgando a pele seca da minha bochecha, para no canto da boca machucada. Agora sinto que é o momento de retroceder na mágoa que tenho pelo tempo que não tenho, pois, se der mais um passo para dentro da escuridão sei que o risco de não retornar é imenso, posso até sentir o abismo me sondando como um abutre carniceiro que não tem pressa, que sabe ser questão de paciência, pois seu banquete está garantido, a presa está quase no último suspiro.
Faço uma pausa, não muito longa, sei da urgência em emergir da dor, preciso de uma lembrança, apenas uma alegria, sei que tenho, não vivi apenas a infelicidade da não conquista. Vasculho minha gaveta de memórias, vejo um sorriso como impresso em polaroide, meu primeiro dia de aula, estava ansiosa, é verdade, mas havia mais do que isso, havia a sensação de começar algo, aquele sentimento do novo, do desafio que começa, da chance que o universo te oferece para que você possa mostrar o seu melhor. Aqueles olhinhos curiosos me encarando, as mãozinhas levantadas pedindo licença para responder quanto é quatro mais quatro. Aqui dentro da minha mente ainda sou a Tia Rosa, professora da segunda série, amada e amorosa. Minha mente às vezes mente. Transbordo do passado quando sinto a luva fria da enfermeira tocar meu braço, é um rosto novo nesta noite, uma jovenzinha de não mais de vinte e dois, bonita, como eu costumava ser na sua idade, na verdade até pouco tempo atrás já que tenho apenas trinta e cinco. Pois é, trinta e cinco e à beira da morte, é injusto, não é? Ou não é?
A novata tem um sobressalto quando abro os olhos e a encaro, tento sorrir para acalmá-la, sei que ela estava tomando meu pulso. Será que pensou que tivesse partido? Bem, não posso julgá-la, os médicos me presentearam com um diagnóstico de câncer terminal e juntamente a isso me deram um prazo, seis meses. Faz quase oito que revezo da minha cama para um dos leitos do Hospital Regional do Câncer, conheço todos por aqui, fiz muitas amizades, nunca é tarde demais pra isso, sei que estou prestes a morrer, não quero fazer disso algo muito pior do que é, o fim é assustador pra quem acha que ainda não viveu tudo, mas quem é que pensa já ter vivido tudo? Sempre haverá mais um filme pra assistir, um livro para ler, um amor pra viver, o problema é que a humanidade e a natureza fizeram juntos muito mais do que se é possível apreciar em uma vida, nossa alma é maior que nosso corpo. Não farei da morte uma inimiga, a morte nada mais é do que uma lei a qual todos estamos sujeitos, todos, tendo concluído os projetos-ideias, ou não, me submeti à lei de braços abertos e coração resignado. Após um curto período de silêncio e entendimento, a jovem fala:
Olá, Rosa. Me chamo Carolina e hoje vou te acompanhar, como está se sentindo, teve dor?
Já não sei mais diferenciar a dor física da dor da alma, essa seria uma pergunta difícil de responder se não soubesse que dentro da bandeja de remédios que Carolina carrega só há o que possa amenizar a dor do corpo.
Olá. - Tento meu melhor sorriso (que não é grande coisa). Como vai, Carol. Posso te chamar assim?
A enfermeira sorri com ternura.
Claro que sim. Ela responde ainda sorrindo.
Eu cheguei até aqui, não me permito enlouquecer e agradeço ao universo por não me enviar a morte e a dor física da morte, porém sei que esperança não cabe mais em meu espírito, não lembro mais que cor ou que cheiro tem a esperança, mas sei que ela vicia. Preciso me manter no meio termo e isso não é um grande desafio, afinal vivi uma vida inteiramente morna, sempre preferi a estabilidade ao risco, disso também me arrependo, mas pelo menos, agora não tenho que lidar com grandes expectativas, meu destino já foi traçado, eu o aceito como uma noiva diante do altar, pego em sua mão e deixo me guiar.
A senhora quer alguma coisa? Sente dor? A enfermeira Carol espera ao lado da cama enquanto retorno de mais um mergulho com meus amigos mais íntimos, meus pensamentos sobre a morte.
Sabe, Carol. Falo quase cochichando, a moça se inclina para frente. - Eu gostaria de um pouco de suco de uva.
A enfermeira me encara por um momento e esboça uma resposta mas antes a impeço apontando para o armário ao lado da minha cama. Ela faz que sim com a cabeça e contorna meu leito, a observo andar, como é graciosa, gosto dela, decido. Tenho gostado mais das pessoas ultimamente. Ela se abaixa, abre a porta do pequeno armário e pega a garrafa de vidro, mostro o copo plástico apoiado na bancada do armário, ela gira a tampa, faço um sinal com a mão para que me dê a garrafa, ela hesita, peço que dê ao menos a chance de ainda me ser útil, quero me servir, Carol me entrega a garrafa, e o copo, a tampa está desrosqueada é só sacar e verter o líquido para o copo, pode parecer simples, porém, descobri que até mesmo as coisas simples dependem da perspectiva para continuar simples e mesmo o sendo, merecem ser apreciadas, comemoradas, valorizadas, a vida é feita de detalhes, de retalhos. Saboreio essa pequena satisfação, servir meu próprio copo, isso é gigante, acredite em mim, nesses momentos me perdoo pois as soma das pequenas coisas feitas são maiores do que minhas frustrações do passado. Carol me olha com surpresa, talvez ela entenda, talvez não, espero que sim, espero que saiba como é bom ter todos os movimentos do corpo em perfeito estado de cognição.
A senhora precisa de mais alguma coisa? Ela pergunta enquanto guarda a garrafa no armário.
Sim, por favor, querida. Você pode colocar o Cd dos Beatles?
Ela me olha novamente com olhos arregalados, Deus do Céu, espero que ela se acostume com o trabalho, quase sorrio da surpresa estampada em seu rosto, mas repenso e limito a apontar o minisystem no chão. Explico que o Cd já está dentro do aparelho e o volume já está como deve estar, Carol liga o aparelho, aperta o play, pega meu copo e o joga na lixeira, me dá boa noite e explica que estará por perto e se eu precisar é só apertar o botão, nem sei onde fica o botão, isso não importa, a vejo encostar a porta e sair. Há muito tempo que assinei um termo de responsabilidade por não aceitar acompanhantes comigo, esse fato faz com que os enfermeiros apareçam a cada trinta minutos para verificar meu pulso e constatar se ainda estou viva. Fecho os olhos e torço para que nos próximos trinta minutos não sinta mais a luva fria de Carol. Estou pronta.


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