Pra você que me amava




   - PUTA! PUTA!

Essa é a lembrança mais nítida que tenho de você. Vou lembrando dos seus gritos enquanto finjo escutar o que tá falando, estamos aqui, naquele bar que nos conhecemos em julho passado, ou era maio? Não sei direito, você está no meio de um discurso, distribuindo argumentos e me olhando com aquele beicinho que sempre faz quando quer parecer indefeso e atingido por algum peso invisível que joguei em você, digo invisível pois, somente você pode ver, e dessa vez não vai me fazer alucinar até que eu também veja.


   - PUTA! PUTA!

Você gritava quando me chutou portão a fora só de camiseta e calcinha, na mão uma sacola de supermercado com meu cigarro e vinte conto amassado. Você repetia as palavras para ter certeza de que a rua toda ouvisse, agora lembro que mesmo sendo verão eu sentia um frio como se estivesse padecendo de 40 graus de febre, tremia e chorava, a vergonha e a humilhação não eram suficientes pra me aquecer. Descalça, eu segui até o ponto de ônibus, as pedrinhas soltas do asfalto entravam em minha pele e me senti cumprindo penitência, menos suja, menos puta.

Enquanto o ônibus não vinha, eu na tentativa de esquecer a vergonha de estar seminua na rua, fazia um jogo com meu inconsciente, com meu sexto sentido, minha cabeça fervia, travava uma briga feia foi dentro de mim, me sentia sozinha, vulnerável sem você, precisava urgentemente que viesse me pedir perdão, eu sabia que viria, você sempre vinha.

Agora que você está aqui na minha frente como um rolo de filme antigo, daqueles corroídos pelo tempo, sou capaz de entender tudo.

De todos os sentimentos que podiam atravessar meu espírito naquele momento, a gratidão seria recebida como a mais bizarra das criaturas, algo como um sapo com dez patas e dois metros de altura, mas foi essa aberração que me assolou ali no ponto de ônibus escuro e solitário.

Nessa confusão e abstinência de você, esbarrei na memória da Marcinha, lembra da Marcinha? Claro que lembra, a Marcinha do Guina, aquela com o cabelo Chanel bem curto e uma franja, acho que você lembra sim, até dizia que o cabelo dela parecia o casco de uma tartaruga, pois é, antes fosse o casco duro e protetor de uma tartaruga onde ela pudesse se encolher toda e defender os órgãos-vida da ponta da faca do Guina. Mas é justamente por isso que lembrei da Marcinha, meu pelo menos é que não tive o mesmo destino dela, talvez o meu pecado fosse menor. Marcinha não foi chamada de Puta, ou talvez tenha sido, mas o que eu sei é que o Guina não botou ela pra fora de casa não, ele botou ela debaixo de sete palmo, pensando bem ele deve ter gritado com ela antes, a chamado de Puta, mas não parou por aí, ele entrou com a faca nela, trinta e cinco vezes, trinta delas na frente dos moleques, dois menininhos a Marcinha tinha, não lembro o nome dos piás, eram gêmeos, isso eu lembro, acho que tinham quatro pra cinco anos, acordaram com os berros da mãe, que provavelmente pedia piedade, ou talvez tenha sido com os gritos do Guina que não deviam ser mais baixos que o da Marcinha.

A Marcinha não teve a minha sorte, além das palavra que ferem a alma, ela também teve a carne rasgada. Minha alma vai sarar, eu sei, já sou uma cirurgiã nesse quesito, sutura e espera cicatrizar, uma costura mental. Mas voltando à Marcinha, ou melhor ao Guina, porque a Marcinha não teve sorte. O Guina disse que tava bêbado e que fez sem pensar, por amor, por ciúmes,nos jornais até saiu mesmo uma notícia, que dizia: “mulher morre vítima de crime passional”, passional, eu vi no dicionário, é de paixão, a Marcinha morreu vítima de um crime de paixão.O Guina disse que queria que a Marcinha fosse só dele, então foi por isso que a matou.

Engraçado não é? Ele matou a Marcinha por amor. O que é o amor? Um vagalume. Isso mesmo o amor é um vagalume, que um menino encontra em uma noite úmida de verão onde aquele ser maravilhosamente lindo brilha com toda sua intensidade junto de outros seres igualmente maravilhosos, o menino volta pra casa porque a mãe disse que é hora de dormir, mas seus olhos não querem deixar de ver a luz fluorescente do vagalume, muito contrariado, naquela noite mal consegue dormir, já é quase dia quando ele tem a incrível ideia de eternizar o brilho do vagalume sob seus olhos, o Vagalume não vai lhe escapar, decide então colocá-lo em um pote de vidro de onde poderá contemplar toda a sua luz de forma controlada, o vagalume será somente seu, totalmente para seu deleite, um candeeiro particular. Então quando chega a noite, o garoto escolhe um dos potes de conserva da mãe, ele não consegue arrancar o rótulo onde ainda se pode ler as palavras pepinos em conserva, mas isso não importa, agora aquele pote será digno de comportar e conservar a luz esplendorosa do Vagalume e é com muita destreza que as mãos ágeis do garoto captura o inseto brilhante. Durante toda aquela noite o vagalume enjaulado irá iluminar o quarto daquela criança e de quando em quando o Vagalume parece vacilar, sentir a falta do ar, ou o excesso das paredes de vidro, então o menino balança o pote e o Vagalume ensaia um vôo mas logo desiste derrotado. Preso, sem brilho, sem ar, vagalume morto. Entende? Assim é o amor, um vagalume brilhante que nasceu livre e não suporta a prisão, o ar comprimido, o excesso de paredes. Amor não é propriedade, amor não se exige, amor exige respeito.



Você me olha esperando uma resposta, você quer voltar, diz que eu entendi errado aquela noite, que agiu daquela forma porque me ama muito e não conseguiu se controlar, você me olha nos olhos e diz que eu não tenho pena de você, que sou má por não compreender como seu amor é grande, me diz que sou uma bonequinha e preciso da sua proteção, e que ao seu lado estarei sempre protegida, prometendo que vai cuidar de mim…

Agora vejo e apesar das lágrimas em meus olhos eu sorrio e vejo, é verdade.

Por isso sou grata, eu me amo e me respeito, eu tive sorte e não vou desperdiçar, sou livre e livre quero ficar.

Eu tropecei, me machuquei, as pedras sob meus pés cavaram mais do que a pele, deixaram um pulsar da alma exposto.

O Guina amava a Marcinha assim como você me ama, assim como o garoto amou o Vagalume.

#pas








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